sexta-feira, dezembro 18, 2015

Em Busca do Rei (Parte 1)

Pessoas Queridas,

          De hoje até a véspera de Natal, estou postando este conto estrelado por Balthazar de Tiro e Lísias de Delos, a dupla que apareceu pela primeira vez no conto "Os Pilares de Melkart", publicada na coletânea "Piratas" da Ed. Cata-Vento.
       Neste "Em Busca do Rei" eles continuam de posse da clepsidra mágica e visitam outro lugar e época da Antiguidade. A Angela Takagui fez uma ilustração  para o conto, e eu vou postar alguns fragmentos dela nos primeiros dias - no último publicarei a ilustra completa. 
         Espero que vocês curtam a história e os personagens, pois pretendo escrever bastante sobre eles no futuro. Também espero que deixem suas impressões nos comentários. O comentador mais criativo vai ganhar o e-book de "Piratas" e mais um brinde surpresa.
           Vamos à história!!


             Ao despertar, Lísias se viu enterrado vivo.
Estava deitado de bruços, o nariz enfiado na dobra do braço, sob o qual havia uma pequena bolsa de ar. Tudo o mais, acima e à sua volta, era pesado e sufocante, como se o houvessem soterrado sob um monte de escombros. Ele tentou gritar, o pânico já retorcendo seu estômago, e não emitiu mais que um gemido; tentou se mover, mas seus melhores esforços não lhe renderam nem uma polegada.
Apavorado, o jovem se pôs a murmurar baixinho uma prece aos deuses, os de seu próprio povo e o egípcio que o metera em mais uma enrascada, mas nenhum lhe deu ouvidos. Pediu às musas, e lhe trouxeram uma bela inspiração para uma ode fúnebre. Por fim, lembrando-se de como chegara até ali, ele se dirigiu a Melkart, o Héracles dos fenícios, senhor dos pilares misteriosos – e quase no mesmo instante o peso sobre suas costas estremeceu, como se alguém estivesse tentando removê-lo.
Balthazar.
O heleno ganhou alma nova com aquele movimento. Não podia ter certeza, pois nem sequer sabia onde estava, mas fazia sentido: até agora, as jornadas mágicas nunca o haviam separado do fenício, e este era forte o suficiente para mover até uma montanha, se embaixo houvesse algo de valor. Aquela era ainda mais fácil, pois era de areia, como Lísias não tardou a perceber. Camadas e camadas de areia sopradas por um torvelinho. Das ondas do mar, ele fora subitamente atirado nas de um deserto.
Felizmente, ali continuava a contar com seu capitão.
-- Lísias! – O peso sobre ele diminuiu, descomprimindo as costelas e a espinha. – Você está aí? Melkarth, Astarte, Baal... e Thoth, seu pássaro maldito, é melhor que o menino esteja vivo, ou, eu juro, vou encontrar seu ninho e torcer seu pescoço! É você aí embaixo? Pode me escutar? Lísias!
A camada de areia cedeu ainda mais, os torrões se desfazendo em uma chuva seca quando o rapaz, finalmente, conseguiu se mover. Tentava erguer a cabeça, mas um braço foi o que saiu primeiro, e Balthazar o puxou, descobrindo uma boa parte.
-- Grande é Melkart! Aí está você! – exclamou, emocionado, ao passo que Lísias lançou os braços em torno dele e lhe deu um beijo cheio de gratidão e areia.
-- Mais uma vez você salvou minha vida – disse, e duas lágrimas escorreram por suas faces. – Pensei que ia morrer embaixo de todo aquele peso.
-- É, agora vamos tratar de não morrer aqui fora, embaixo desse sol. – Balthazar limpou a barba, correu os olhos pela paisagem à sua volta. – Isto é um deserto, e não faço ideia de qual. No que você pensou desta vez?
-- No que você disse quando estávamos chegando aos pilares – respondeu Lísias, esfregando o cabelo na tentativa de livrá-lo da areia. – Você falou: “Leve-me até o rei, vamos ver quem vai passar a ser chamado assim depois que eu puser as mãos nele”. Era o que eu estava pensando quando disse as palavras.
-- Hum. Não parece que tenha funcionado – resmungou Balthazar. – Se bem que o maldito viaja bastante, até poderíamos encontrá-lo num deserto, em algum momento da vida. Mas não podemos ficar parados à espera dele. Vamos sair daqui.
-- Para onde? – indagou timidamente o heleno.
-- Bom, no momento, acho que tanto faz. Precisamos com urgência de água e abrigo, por isso seria bom achar um povoado, ou um oásis, ou uma caravana. Mas, para não andar em círculos, vamos nos guiar pelo sol. – Estreitou os olhos, apontando para o brilho ofuscante acima deles. – Vamos seguir para o Oriente. Quem sabe os deuses nos sorriem desta vez?
*****
A sorte, ou melhor, o destino de Balthazar e Lísias havia mudado por completo alguns anos antes, quando o fenício e seu fiel escravo haviam posto as mãos num objeto mágico: a clepsidra consagrada a Thoth, o deus egípcio com cabeça de íbis. Um de seus próprios sacerdotes encomendara o roubo do artefato, deixado num templo remoto por um general de Alexandre, o qual, além de ter invadido o Egito, era o responsável pela destruição de Tiro e pela morte da família de Balthazar. Ir atrás dele, através das espirais do tempo, e impedi-lo de arrasar sua cidade foi a tarefa que o capitão se impôs, tão logo soube das propriedades da clepsidra. No entanto, o inesperado ataque de um pirata acabou com seus planos de vingança, e teria acabado também com sua vida se não fosse Lísias, que se agarrou a ele enquanto recitava a fórmula mágica.
Tal como prometera o sacerdote, os dois voltaram no tempo, mas não a dezena de anos que esperavam e sim vários séculos, a ponto de serem resgatados pelo Argo em sua viagem para a Cólquida. À aventura se seguiram várias outras, em tempos e lugares diferentes, mas que sempre acabavam no mesmo ponto: as colunas de Héracles, ou, segundo a tradição fenícia, os pilares de Melkart, como eram chamados os rochedos que guardavam os mares do Ocidente. A passagem de uma a outra realidade era sempre turbulenta, mas dessa vez fora ainda pior, pois o encantamento fora recitado em meio a uma tempestade – e à confusão daqueles momentos somava-se agora a estranheza de terem desembocado ali, tão longe do mar, sob um sol que ameaçava cozinhar seus miolos. Não tinham nada com que cobrir as cabeças, a menos que tirassem as túnicas que estavam usando no barco; a espada de Balthazar e a clepsidra que Lísias levava na mão eram toda a sua bagagem.
-- Que os deuses nos ajudem – murmurou o heleno, arquejando, após duas centenas de passos. – Se não acharmos água, perderemos as forças neste calor.
-- Vamos dar um jeito – Balthazar tentou animá-lo. – Não tardaremos a cruzar o caminho de alguém.
-- De quem? Líbios?
-- Este não é o deserto dos líbios – respondeu o capitão. – Quando anoitecer, vou ter uma ideia melhor pelas estrelas, mas é possível que esta não seja uma região muito distante de Tiro. E por falar em coisas boas, olhe! – Apontou, satisfeito, para um ponto mínimo que se enxergava a distância. – Há umas árvores ali, parecem tamareiras! Pode ser que achemos água... e mais alguma coisa que estou vendo se mexer.
-- Eu também. Uma pessoa? – perguntou Lísias, mas o vulto lhe pareceu grande demais para isso. – Um... Um animal?
-- Acho que sim. Meio esquisito, mas é. – Balthazar ficou em silêncio por mais trinta passos, depois sorriu. – Ah, já deu para ver! É um camelo, olhe!
-- Camelo? Parece ter mais corcovas que o normal – disse Lísias, mas pouco depois conseguiu entender. – Oh, sim, é que ele está carregado. Tem um monte de alforjes nas costas. E sempre volta ao mesmo lugar e baixa a cabeça. Espero que esteja bebendo de um belo lago d´água fresca.
-- Também espero, mas ele parece inquieto, e é estranho o dono não estar por ali. Precisamos ter cuidado.
Devagar, os dois percorreram o terreno que os separava das tamareiras, felicitando um ao outro em silêncio ao constatar que era de fato um oásis, mas cheios de cautela quanto ao que, ou quem, poderiam encontrar ali. Um viajante solitário? Mercadores? Caçadores de escravos?
-- Só estou vendo o camelo – comentou o heleno.
-- Eu também. Preste atenção a qualquer movimento nos arredores – disse Balthazar, aproximando-se do animal. Era dos grandes, muito bem tratado, com pelo avermelhado que, em vários pontos, estava recoberto por uma camada de areia. O mesmo acontecia com boa parte da vegetação do oásis, excluindo apenas as tamareiras mais altas; isso era um sinal de que a tempestade chegara até ali, e Balthazar ia dizer que o camelo devia ter se extraviado quando viu o que estava preso ao flanco do animal.

*****


Parte 2

4 comentários:

ricleite disse...

Se fosse para adivinhar o que interromperia um comentário eu diria que está preso ao flanco do camelo um odre de vinho.
Mas isto poderia ser muito comum.

Algo que iria fazer eles ficarem chocados seria uma flecha. Presa fracamente em uma costela do pobre animal de couro grosso.

Ele poderia estar cheirando no chão o seu antigo ocupante. Enterrado na areia, mas vivo! ou melhor ainda... Viva!
Eles foram atacados e o camelo carregou-a até lá. Ela praticamente caiu no poço, pois estava com desidratada depois do camelo enlouquecidamente correr com ela deserto adentro. Se curvou do camelo e caiu no poço.

Se fosse uma linda princesa etíope, com a pele tão negra quanto o fundo do poço de água seria bacana.

Mas isto é minha imaginação maluca. Claro que o seu conto deve ser bem diferente :-D

(Rick Galasio)

ricleite disse...

Musica para a noite no deserto que nossos herois irão provavelmente enfrentar: https://youtu.be/Fh6XD5ytBUg

Astreya disse...

E não houve um Balthazar que andou seguindo estrelas no deserto? Ouvi essa história uma vez. Era o seu Balthazar, Ana? Estou achando que teremos uma grande revelação! :D

(Esses dois são o máximo, Ana. Amando e acompanhando. Que bom que você vai escrever mais e mais sobre eles).

Jana disse...

Eba, quero o próximo episódio! Acabou com um gancho lindo! Hahaha...
Vamos lá. Arrisco que os dois encontraram um fardo com um pequeno nenê enrolado em um fardinho. É um conto de Natal e eles viajam através do tempo... E se, de repente, vão encontrar com o menino Jesus? oO